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8 de agosto de 2013

Entrevista: Matheus Haddad – Egresso do curso de Ciência da Computação da UNIFENAS

Empresa de ex-aluno destaca-se por modelo diferenciado de gestão


Everton Marques
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“Esconder informações mostra que você não confia de verdade na pessoa. Então, por que você ainda trabalha com ela?”, diz Matheus

A conquista de prêmios como o como a "Melhor Empresa de Serviços de Tecnologia da Informação" e "Destaque de Boas Práticas de Inovação" em 2012, pelo Sebrae de São Paulo, colocaram a Webgoal em evidência. A empresa, que tem como um de seus sócios fundadores Matheus Haddad, egresso do curso de Ciência da Computação da UNIFENAS, câmpus de Alfenas, mereceu destaque na Revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, da Editora Globo.

Responsável por desenvolver aplicações e soluções para a Web, a Webgoal adota um modelo diferenciado de gestão: todas as decisões são compartilhadas com os seus 20 colaboradores, até mesmo as informações financeiras. Na reportagem publicada na edição de agosto, sob o título "Um guia para líderes: como achar as pessoas certas para a sua empresa" e subtítulo "21 perguntas e respostas para montar um time imbatível", Matheus conta como funciona uma gestão que adota a transparência total entre colaboradores e sócios.

Ele afirmou que na sua empresa (com sede em São Paulo e uma unidade em Poços de Caldas-MG), durante a tomada de decisões, não existem cargos, hierarquias ou departamentos. Além de Matheus, a Webgoal possui outros três fundadores: Altieres Lopes, também egresso do curso de Ciência da Computação da UNIFENAS e seu colega de turma, Flávio Logulho e Jefferson Cavalcante (estes dois formados em outras instituições).

Por e-mail entramos em contato com Matheus Haddad, que prontamente nos atendeu e respondeu a algumas perguntas relacionadas à matéria publicada na Revista.



Na mesma reportagem da Revista Pequenas Empresas Grandes Negócios, Ruy Barros, consultor do Sebrae-SP, diz acreditar “que é necessário transmitir aos funcionários apenas dados macro da empresa”. Qual a sua opinião em relação à fala dele?

Não concordo. Acredito que os funcionários deveriam saber todos os dados da empresa. A transparência é um pré-requisito para que todos possam participar da gestão do negócio, para que auto-organização aconteça dentro de uma equipe. Se todas as informações da empresa forem compartilhadas com as pessoas, cria-se um senso de responsabilidade compartilhada. Em uma empresa, as equipes e as pessoas ficam caminhando no escuro a menos que exista acesso rápido e fácil à informação. Ter transparência é como acender a luz! E isso vale para qualquer tipo de informação: estratégica, financeira, contábeis, jurídicas...



Quando você, o Altieres, o Flávio e o Jefferson criaram a Webgoal tinham em mente que a empresa adotaria o atual modelo de gestão?

Não. Nós acreditávamos apenas em criar uma empresa que desenvolvesse software de maneira diferente. Essa maneira era utilizando métodos ágeis, como Scrum, eXtreme Programming e Kanban. Esses métodos, que são focados mais nas pessoas do que nos processos, influenciaram o estilo da nossa gestão. Mais tarde, percebemos que os mesmos valores e princípios que formam a base desses métodos também formam a base para esse modelo mais orgânico e democrático de gestão. Esses valores e princípios tratam um projeto de software ou uma empresa como um sistema complexo adaptativo e não como uma máquina (que é o modo tradicional e determinista de ver uma empresa). Conto um pouco sobre como a gestão evoluiu no meu blog: http://gestao30.matheus.eti.br/um-blog-sobre-gestao/



A gestão aplicada na Webgoal é inspirada em alguma outra instituição ou é mesmo uma inovação de vocês? Ou seja, como foi concebida, em que se inspiraram para tal decisão?

O modelo de gestão que utilizamos é uma consequência do tipo de trabalho que realizamos, que é mais criativo e dependente de trabalhadores do conhecimento. É a abordagem que combina melhor com o momento que vivemos no mercado e na evolução dos mercados. Outras empresas também já perceberam isso. Alguns exemplos são: Toyota, W.L. Gore, Semco, Google, Hendelsbank, Star Morning e outras.



O modelo adotado em sua empresa pode ser aplicado em diferentes estruturas organizacionais?

Pode ser adotado em outras estruturas organizacionais também. Inclusive por empresas grandes, com muitas pessoas e alto faturamento. Veja os exemplos de empresa que citei acima. Além delas, existem muitas outras.



Qual o primeiro passo para que outras empresas possam adotar um modelo de transparência total?

O primeiro passo é mudar a forma como essas empresas encaram seus empregados. Empresas tradicionais consideram que as pessoas não gostam de trabalhar, acham o trabalho chato (inclusive, irão evitá-lo se for possível), devem ser controladas e comandadas para fazer o que é certo, evitam assumir responsabilidades, são motivadas pelo dinheiro, têm medo de perder o emprego e não são criativas (a não ser para desobedecer às regras). Empresas modernas e que utilizam modelos de gestão mais democráticos consideram que as pessoas, nas condições certas, querem trabalhar, se interessam pelo trabalho, podem ser felizes no trabalho, se auto-organizam frente a um objetivo, aceitam responsabilidades, são motivadas pelo desejo de realizar o seu potencial, são criativas e podem gerar inovações para o negócio. Considerando essa segunda maneira de ver as pessoas, ter transparência total é uma consequência natural. Esconder informações mostra que você não confia de verdade nas pessoas. Então, por que você ainda trabalha com elas?



Se é que existe, qual seria o ponto negativo deste modelo?

O ponto negativo é que nem todos estão acostumados com ele. Já temos décadas do paradigma tradicional do trabalho e mudá-lo não é simples. Todos estão acostumados com a ideia de que no trabalho você tem um chefe e obedece a ordens. Ninguém foi ensinado a ser pró-ativo numa empresa. Ninguém foi ensinado que não é preciso ter um cargo para trabalhar nela.



Em uma outra ocasião você me contou sobre este modelo e eu o transmiti a uma colega administradora. Ela se posicionou descrente de que isto possa ser aplicado em todas as empresas. Diante disso, percebo que aos olhos de outras pessoas o modelo adotado pela Webgoal pode sugerir uma utopia, que no caso de vocês se concretizou. O que diria a essas pessoas?

Eu concordaria com elas. Enquanto as pessoas acharem esse modelo de gestão uma utopia, elas nunca conseguirão mudar as coisas. Esse modelo de gestão depende mais das pessoas do que de processo. É engraçado como as pessoas fazem a "gestão" das suas vidas, das suas casas e das suas famílias de uma maneira muito mais eficiente do que fazem a gestão das suas empresas. Por que as coisas numa empresa são tão antinaturais?

Sempre que eu contava sobre o modelo de gestão da Webgoal para as pessoas, todas duvidavam e achavam que isso funcionava apenas porque somos uma empresa pequena. Depois que vencemos prêmios e fomos destaques em revistas e reportagens, as pessoas começaram a nos levar mais a sério. Então, eu acho que falta isso também: quando mais empresas começarem a adotar modelos de gestão como o nosso e isso se tornar mais natural, as outras empresas acabarão se adaptando e migrando para esse modelo de gestão também.