As alunas Carolina e Raíssa iniciaram o artigo após uma atividade em sala de aula
As alunas Raíssa de Souza Mercêdo Moreira e Carolina Ferreira Boneli, do 1° período de Medicina da UNIFENAS, câmpus de Belo Horizonte, levaram adiante uma atividade de sala de aula e transformaram o trabalho em um artigo. A turma foi dividida em duplas, que entrevistaram usuários de uma USB (Unidade Básica de Saúde). “No trabalho devíamos pesquisar sobre os conceitos de saúde segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde). Em seguida, devíamos entrevistar os usuários da UBS Jardim Guanabara quanto ao que era saúde, qualidade de vida e doença para eles e depois relacionar as respostas com os conceitos estudados”, explica Raíssa. Com base nas respostas, a dupla percebeu que poderia escrever mais sobre o que viu. Intitulado “A Medicina Paradoxal de BH para o Brasil”, aborda os deveres constitucionais do Estado e do SUS, demonstrando o que deveria ser feito e a atual realidade. Além disso, é citado, a judicialização da saúde, cada vez mais comum em nosso país.
Abaixo, confira o artigo na íntegra: A Medicina paradoxal de BH para o BrasilRaíssa Mercêdo, médica veterinária pela UFMG e Carolina Boneli, acadêmica de medicina pela UNIFENAS-BHNão é preciso ir a regiões de difícil acesso para perceber o paradoxo da medicina no país, onde o que se faz é contrário ao que se propõe. A contradição está em toda parte, até mesmo em UBS’s de Belo Horizonte, conforme se constatou em entrevista realizada com alguns de seus usuários. Por perguntas simples como o que é saúde, qualidade de vida e doença para eles, percebe-se o quanto a situação da medicina aqui pode ilustrar a do restante do Brasil.
Vale, antes, relembrar que, com a atual Constituição, vive-se em um Estado garantidor da saúde para todos, que deve promovê-la, protegê-la e recuperá-la por ações em conjunto com a comunidade. Interessante, ainda, é lembrar que a maior delas já implantada é o Sistema Único de Saúde (SUS), que abrange as UBS’s onde atuam as equipes de saúde da família.
Criadas em 1994, essas equipes são o meio mais eficiente pelo qual o Estado garante a saúde de forma humanizada e em seu conceito mais amplo: “o completo bem-estar biopsicossocial e não só a ausência de doença”(OMS, 1978).Em complemento a esse objetivo, o Código de Ética Médica exige o respeito à autonomia do paciente e o dever de informá-lo sobre as condutas adotadas em seu caso clínico. Perfeito na teoria. Paradoxal na prática. É o que bem ilustram os resultados da entrevista, que divergem dos fatos teóricos supradescritos e que permitem maior aproximação da realidade.
O primeiro resultado, a confusão momentânea dos usuários quando interrogados, mostra que ninguém havia, antes, feito tais perguntas a eles.Ademais, o segundo ressalta a discrepância entre as respostas (“saúde é apenas a ausência doença”) e o conceito da OMS, adotado pelo estado.Embora a amostragem seja pequena, ambos sugerem a ineficiência da promoção de saúde envolvendo a comunidade, pois, do contrário, as respostas seriam condizentes com o conceito proposto.E, haveria menor surpresa dos
usuários, já que o esperado, em uma estratégia de promoção de saúde em parceria com a população, é a abordagem primária dos temas da entrevista.
Por fim, sobre o terceiro, a relação dessa surpresa com o disposto no Código de Ética Médica, pode-se refletir: se fosse hábito do médico perguntar aos pacientes o que é saúde/qualidade de vida/doença para eles, ficariam estes tão surpresos?E, se não se sabe o que pensam acerca desses assuntos que ditam a essência de suas vontades, como respeitá-las?Desconhecendo-se assuntos tão básicos, informar-lhes-ia adequadamente, considerando seus anseios e cultura próprios?
Fato é que há dados estatísticos indicando aumento da judicialização no âmbito médico, cujo motivo principal é a falta de completude das informações, seguido de desrespeito à vontade do paciente. Isso responde às reflexões acima(Departamento de Direito Médico, Odontológico e Hospitalar da Ivan Mercêdo Moreira Sociedade Adv.,2013).
Infelizmente, a consequência da negativa dessas respostas é a superficialidade da relação médico-paciente, cuja estatística mostra ser a causa da maioria do contencioso brasileiro relacionado à saúde(IMM,2013).Desnecessário, pois, viajar para ver, no país, o paradoxo da medicina.Só essa entrevista já o evidencia nas incontáveis e nas interrelacionadas distorções teórico-práticas no papel do Estado, do SUS e dos médicos para garantia da saúde.
Com isso, não é novidade dizer que apenas uma melhora conjunta, sintonizando propostas e práticas, levará, um dia, ao funcionamento eficiente da medicina no Brasil. Enquanto isso, vale reparar ao redor, pois a observação dessa amostra, sem dúvidas, é suficiente para ilustrar a realidade de que se faz parte,aquela que parece,à priori,estar tão distante.